Ao longo dos seus quase 18
anos, a instituição esmorizense não tem poupado esforços no
sentido de apoiar as famílias que caíram nas malhas da
toxicodependência, preocupando-se, desde então, em prevenir esse
flagelo junto dos jovens. Várias acções já alertaram para o
problema, que hoje se resume ao diálogo e ao nome que as equipas
de futsal levam aos vários pontos do distrito. Obrigar as pessoas
pensarem no assunto é a intenção da Associação, que pretende,
assim, chegar ao objectivo essencial: o afastamento da droga
O futsal é hoje a sua cara. É através desta
modalidade que tenta passar a mensagem que, desde a sua fundação,
em Julho de 1988, pretende transmitir, das mais diversas formas,
sobretudo aos mais jovens: não à droga. Trata-se da Associação
Fraterna de Prevenção e Ajuda aos Dependentes Toxicómanos
(AFPADT), criada na freguesia de Esmoriz há quase 18 anos,
“fruto da preocupação de algumas pessoas em apoiar os
toxicodependentes”, conta, ao TRIBUNA PRESS, o seu presidente
desde então, José Augusto Silva. Foi com esse intuito que nasceu,
a par da vontade de prevenir, junto dos mais novos, a proliferação
da toxicodependência, numa altura em que a droga “martirizava
muitos jovens”.
Imbuído da “preocupação” em ajudar os
cidadãos a viverem longe do consumo de estupefacientes, um grupo,
que incluía o responsável máximo da instituição, resolveu encarar
com seriedade a possibilidade de constituir uma associação de
beneficência. Daí à sua concretização foi um pequeno passo,
possível após a atribuição de um nome e a criação de estatutos,
bem como o cumprimento de todas as restantes formalidades
exigidas.
O trabalho efectuado pela AFPADT acabaria por
ser alvo de reconhecimento, mais tarde, o qual foi consubstanciado
no estatuto de Instituição de Utilidade Pública que ganhou.
“Não foi chegar, ver e vencer. Esse estatuto implicou o
reconhecimento de diversas entidades e resulta de um trabalho de
muitos anos, que foi considerado de relevância”, assegura José
Augusto Silva.
Acções Marcantes
O responsável da AFPADT entende que a prevenção
da toxicodependência se faz “de toda a maneira”, desde o
diálogo à promoção de actividades, pelo que foi das mais variadas
formas que a Associação foi alertando para o problema. José
Augusto Silva destaca as acções desenvolvidas no Dia do Concelho
Contra a Droga, então celebrado a 2 de Junho, como aquela em que
elementos das Escolas de Esmoriz – os alunos eram o alvo principal
das acções de sensibilização – partiram da cidade esmorizense para
uma corrida de estafetas, que, depois de passar por várias
freguesias, terminou junto ao Mercado Municipal de Ovar. Aí,
recorda o dirigente, “já havia uma concentração de largas
centenas de estudantes”, os quais desfilaram pela cidade com
slogans, antes de se manifestarem no Estádio Marques da Silva.
As acções de luta contra a droga promovidas
pela AFPADT tiveram continuidade em anos seguintes, como o
comprova a concentração de cerca de duas mil crianças de várias
escolas do concelho no pavilhão gimnodesportivo da Ovarense.
“Nesse encontro, fizemos um espectáculo com marionetas que falava
na prevenção da droga. Terminou com a distribuição de um lanche a
todas as crianças participantes”, conta, nostálgico, o
presidente da instituição.
No entanto, pouco antes de terminar a primeira
metade da década de 90, a Direcção “entendeu cancelar esses
acontecimentos”, lembra, atribuindo a responsabilidade à
atitude do então presidente da autarquia vareira, Armando França.
“Dava-nos pouca importância, quando, para as pessoas que
trabalham de graça, o seu estímulo é o reconhecimento das acções
que desenvolvem”, explica, criticando o facto de o
ex-presidente da Câmara Municipal de Ovar não se associar
directamente às iniciativas, que “deixavam sempre marca”.
As actividades passaram, assim, a confinar-se à
freguesia de Esmoriz, sobretudo através de iniciativas que tinham
por objectivo incentivar alunos a elaborarem trabalhos no âmbito
da prevenção da droga. “Assim é que entendíamos que estávamos a
prevenir, porque enquanto eles faziam desenhos e redacções, não
pensavam noutras coisas”, considera o responsável.
A Origem do Futsal Feminino
Não menos importantes que as restantes acções,
neste combate declarado à droga, foram os torneios de futebol de
praia, organizados pela AFPADT, no areal da Barrinha de Esmoriz.
“Era mais uma forma de os jovens ocuparem o seu tempo”,
salienta José Augusto Silva, que não imaginava que, através destas
provas, pudesse nascer uma equipa feminina de futsal na
Associação. Mas foi isso que aconteceu. Depois de o grupo de
atletas ter disputado um jogo particular em Vale de Cambra, frente
ao Codal, um elemento pertencente à Associação de Futebol do Porto
terá sensibilizado os directores da instituição de Esmoriz a
constituírem uma equipa feminina de futsal, ao que acabaram por
aceder.
A equipa estreou-se em competições oficiais com
a participação no Campeonato Distrital da Associação de Futebol do
Porto, onde se manteve durante quatro anos. Só depois, com a
inclusão de uma competição idêntica no distrito aveirense, é que a
AFPADT abandonou a prova no Porto, passando a integrar aquela
promovida pela Associação de Futebol de Aveiro, na qual já se
sagrou, por duas ocasiões, vice-campeã distrital da modalidade.
Hoje, é a face mais visível da AFPADT e o
veículo utilizado para transmitir os alertas necessários à
comunidade. “Fazemos passar a mensagem através do nome, dos
atletas e do diálogo que se tem com eles. Entendemos que é a falar
e mostrando-nos que fazemos prevenção”, garante José Augusto
Silva, que se recorda de ouvir, em alguns locais onde a equipa se
deslocava: Bolas, aqueles drogados têm mais força do que nós.
“Essa era uma forma de eles se interrogarem. A seguir à
interrogação, vinha a resposta: Nós estamos, precisamente, a
dizer-vos que é possível viver sem droga”, relata o
responsável da instituição.
A AFPADT chegou a ter na equipa atletas de
risco, que “deixaram os locais de perigo e passaram a ser
pessoas comuns”, junto da camaradagem e amizade das colegas.
“É todo um trabalho que se vai minando. Desse modo, foi
possível passarem a ser pessoas integráveis na sociedade”,
diz, satisfeito, José Augusto Silva. Actualmente, o grupo é
constituído por 13 jovens, com uma média de idades a rondar os 22
anos, treinadas por Rui Pinheiro: Sandra Ferreira, Sofia Silva,
Andreia Oliveira, Cristina Almeida, Liliana Gonçalves, Joana
Silva, Tecas, Nanda, Elisabete Costa, Katherin Silva, Sílvia
Cunha, Cidália Casal e Sandra Oliveira.
Masculinos Entram em Cena
Entretanto, a AFPADT acabou por emprestar o
nome a uma formação masculina, constituída por um grupo de jovens
que participava, também, nos torneios de futebol de praia,
fornecendo-lhes, ainda, apoio logístico. Chegou mesmo a disputar o
campeonato nacional, sofrendo um interregno, mais tarde. O futsal
masculino reapareceu, depois, mas já numa vertente juvenil, que
durou apenas dois anos, devido a problemas de ordem financeiro.
Após nova interrupção, ressurgiu na presente
época desportiva, com uma equipa sénior, que evolui na Zona Norte
do Campeonato Distrital da II Divisão de Aveiro. A participação
deste conjunto tem sido pautada pela baixa produção e,
consequentemente, pelos maus resultados, o que lhe vale, para já,
a última posição da tabela classificativa.
Dia da Cidade
Contra a Droga é Desejo
“Esta colectividade será tudo o que as pessoas
queiram que ela seja”. É desta forma
que José Augusto Silva encara o futuro da AFPADT, numa altura em
que entende ser necessário sangue novo para dar “continuidade
ao projecto” da instituição. Muito próximo de passar o
testemunho, o ainda presidente da Associação não esconde “uma
certa frustração” pelo facto de terem terminado as acções que
outrora mobilizaram o concelho no combate à droga. “Fiquei
frustrado, porque eram acções que mexiam com as pessoas”,
sustenta.
Reconhecendo que, hoje, “o concelho consome
mais droga que anteriormente”, José Augusto Silva antecipa uma
resposta àqueles que eventualmente questionem o trabalho
desenvolvido pela AFPADT nessa vertente: “Nós trabalhámos com
aqueles que quiseram ouvir a nossa mensagem. Garanto que há
muitos”. O mesmo responsável confessa que gostaria de ver
revitalizadas essas actividades, para que fosse possível criar um
Dia da Cidade Contra a Droga. “O dia 2 de Junho podia, ainda
hoje, ser um marco no concelho de Ovar. Se os futuros directores
da AFPADT quiserem continuar o projecto, porque não?”,
salienta.
Ao fim de cerca de 18 anos, a AFPADT vive,
essencialmente, do “apoio de alguns carolas”, para além de
receber a ajuda da Junta de Freguesia de Esmoriz, nomeadamente no
pagamento do pavilhão do Esmoriz Ginásio Clube, para as suas
equipas poderem jogar. Da Câmara Municipal de Ovar recebeu, até à
época anterior, um subsídio anual, já que, até ao momento, ainda
não lhe foi atribuído qualquer incentivo referente à presente
temporada desportiva.